
Porcos, homens e jacarés
I
A população daquela região vivia da criação de porcos e ainda que tivessem como vizinhos alguns jacarés que surrupiavam algum animal volte e meia isso nunca foi um problema, pois durante muito tempo porcos, homens e jacarés viveram em paz, pelo menos até aquele ano.
Os porcos começaram a desaparecer de tal maneira que muitas famílias foram arruinadas e tiveram que deixar a região; entretanto, o mais curioso de tudo é que o número de jacarés também parecia ter diminuído e foi esta intrigante situação que fez com que minha avó, que não me via havia anos me escrevesse pedindo ajuda. Dizia na carta que alguém como eu, jovem e da cidade talvez tivesse alguma idéia para solucionar o mistério. Não sabia o que ela pensava que eu poderia fazer, mas em primeiro lugar ela nunca tinha me pedido nada, segundo havia tempo que eu devia uma visita e em terceiro eu começava a ficar curioso com aquele caso.
O caminho para aquela região do pantanal era longo, saía da rodovia e se estendia por vários quilômetros de estrada de terra. Minha avó morava com meu tio no centro da região onde os desaparecimentos estavam acontecendo. Como tinha certeza que minha moto não suportaria aquelas estradas, chamei um amigo que tinha um carro e que gostava muito de enigmas como aquele.
Paulo Baruck, ou apenas Baruck, como os amigos da escola o chamavam para diferenciar de um outro Paulo que estudou conosco. Ele quase entrou para minha família, tinha sido namorado de minha irmã, mas eles acabaram se separando.
Ainda na escola nós nos envolvemos num caso sombrio de assassinatos que ele brilhantemente conseguiu fazer com que o assassino fosse desmascarado e preso. Paulo Baruck possui uma mente fascinante e devo afirmar que por várias vezes o desafiei e perdi. Creio que ele seja capaz de olhar uma situação de fora ao mesmo tempo em que está dentro dela, ou pode imaginar todas as respostas possíveis para um problema, enumerar suas dificuldades e possibilidades, descartá-las uma a uma e encontrar a certa. O que eu levaria uma vida toda ele faz quase sem esforço.
Antes de conhecê-lo, achava que isso era apenas personagem de romance policial, mas como diz uma frase que ouvi em algum lugar: se a mente é capaz de criar, então pode se tornar real. Paulo Baruck é uma dessas realidades impossíveis e talvez eu saiba por que ele existe. Paulo é criação dos próprios desejos; sempre foi tão apaixonado por histórias misteriosas, quase inexplicáveis que as atrai para si como um imã. A fixação por mistérios que antes estava apenas em suas leituras do tempo de adolescência tomou conta de sua vida transformando-o num estranho personagem da vida real. Mas deixemos de divagar sobre meu amigo e passemos à história...
— E o noivado, como vai? — perguntou Baruck enquanto dirigia sentindo os solavancos da estrada.
— Tudo ótimo. Joana está muito empolgada e cuidamos de todos os detalhes para o casamento.
— E quando será?
— Maio.
— E você está empolgado?
— O medo não deixa.
Rimos como garotos e por fim ele disse:
— Realmente é um grande passo, uma mudança assustadora, mas tenho certeza que vocês vão tirar isso de letra. Vocês se amam.
— Isso é verdade — disse eu pensando se ele realmente acreditava no amor. — É aqui, entre na próxima à direita.
O lugar parecia abandonado, entretanto, isso eu já esperava, afinal, o que uma velha senhora e um tio, digamos, despreocupado poderiam fazer com uma propriedade daquele tamanho? Vó Lucinda mal dava conta dos afazeres domésticos e tio Jonas estava mais para tio Jó pela paciência. Claro que todo o sustento da casa vinha dele e de sua criação de porcos, mas era só. Ele vivia para aqueles porcos e muitas vezes cheirava e pensava como eles.
Vó Lucinda estava em pé na porta quando chegamos.
— Ainda bem que você chegou, meu neto. — A expressão dela parecia preocupada.
— O que houve?
— Seu tio desapareceu.
— Como assim desapareceu?
— Saiu hoje bem cedo para tratar os porcos e não voltou mais.
— Acalme-se, vó. Sabe como ele é devagar para fazer as coisas.
— Não, meu querido. Tenho certeza que alguma coisa aconteceu. Ele saiu antes do café e NUNCA ficaria sem o café-da-manhã até uma hora dessas. Se tem uma coisa que conheço é o estômago do seu tio.
Olhei para Paulo e ele me devolveu o mesmo olhar interrogativo.
— O chiqueiro ainda fica no mesmo lugar?
— Sim.
— Então fique calma que nós vamos lá olhar.
Nos afastamos um pouco da casa e meu amigo perguntou:
— Seu tio sempre morou com a sua avó?
— Sempre. Meu tio é tão parado que talvez ainda seja virgem. Nenhuma mulher o suportaria como marido. Nem consigo imaginá-lo tomando conta de uma família!
— Você acha que aconteceu alguma coisa?
— Que nada! Deve estar por ai com aquela “sonsera” toda que lhe pertence.
O caminho até o chiqueiro era estreito e cheio de mato. Gritei chamando por tio Jonas algumas vezes, mas não houve resposta.
O chiqueiro que em outras épocas fora abarrotado de porcos, agora contava com uma dúzia e dentre estes apenas uma era destaque. A porca campeã de tio Jonas era com certeza o maior suíno que eu já tinha visto e devo acrescentar que agora ela estava ainda mais gorda que quando foi premiada no concurso da região dois anos antes.
— Que animal imenso! — exclamou Paulo.
— Toucinho para vários anos.
Ele riu.
De repente algo dentro do chiqueiro me chamou a atenção. Pedaços da roupa de tio Jonas ainda podiam ser vistos no meio da lama. Não falei nada, mas apontei com o indicador e nos aproximamos num silêncio gélido daqueles que faz o corpo se mover devagar, mas a mente viajar por caminhos que não deveria.
— Paulo, você acha que os porcos...
Meu amigo estava com a atenção voltada para outra coisa.
— Veja, Miguel. Algo foi arrastado seguindo aquela direção.
— O rio.
Corremos na direção do rio. Era nítido que alguém tinha sido arrastado para dentro da água.
— Paulo, tio Jonas foi comido pelos jacarés.
II
Contar para vó Lucinda foi a pior parte. Tio Jonas era o último filho vivo da vovó, uma vez que meu pai tinha sido morto anos atrás. Além disso, a relação de cumplicidade entre meu tio e minha avó sempre foi inigualável. Desde que eu me conhecia por gente um existia para o outro e certamente pensar na vida sem sua única companhia deveria ser muito difícil.
Dei um calmante para minha avó e a colocamos na cama. Precisávamos avisar a polícia local e os conhecidos. Paulo ligou para a polícia e eu para alguns conhecidos. A polícia não se interessou muito pelo caso. Fez algumas perguntas, olhou o local e comentou que aquela era uma região perigosa por causa daqueles animais, depois foram embora.
Naquela tarde alguns dos vizinhos mais próximos vieram para ver minha avó, que por sinal era muito querida na região. O primeiro a chegar foi Bartolomeu, o viúvo que vivia tentando tirar uma casquinha de minha avó. Todos na minha família e naquela região sabiam das intenções do velho com dona Lucinda.
Bartolomeu era um velho barrigudo e vermelho como se tivesse engolido pimenta malagueta e usava um chapéu de palha da melhor qualidade para cobrir a cabeça praticamente nua. O viúvo tinha dinheiro o bastante para morar em qualquer outro lugar, até porque tinha mais três fazendas espalhadas pelo estado e apesar disso afirmava gostar daqueles ares.
— Não se preocupe, Dona Lucinda, pois estarei sempre por perto para o que a senhora precisar. — O velho não soltava a mão de minha avó.
— Por favor, sente-se seu Bartolomeu. Obrigada pela colaboração.
— Não precisa agradecer. A senhora sabe que pode contar comigo, afinal, ele era sua única companhia e a solidão é algo tão triste... — novamente ele estava mais próximo do que minha avó desejaria.
— Realmente — respondeu ela se levantando; ele também ficou em pé. — Mas com certeza sempre podemos contar com pessoas especiais.
— Justamente o que eu estava dizendo...
— E graças a Deus tenho aqui meu neto Miguel e o amigo dele Paulo, como o senhor bem pode perceber, senhor Bartolomeu.
A cara de insatisfação do velho foi tão transparente que quase cai numa gargalhada.
— Meninos, façam companhia ao senhor Bartolomeu, afinal, ainda não estou me sentindo completamente bem devido aos calmantes que tomei.
O velho nos olhou com uma careta amigável. Houve um instante daquele silêncio constrangedor até que Paulo disse:
— O senhor também cria porcos?
— Se eu crio porcos? Eu sou o maior criador de porcos de todo este estado, garoto.
— Seus porcos também têm desaparecido?
— Sim. Esses desgraçados desses jacarés estão acabando com nosso negócio. As leis ambientais protegem esses répteis nojentos enquanto nossos porcos e nossa gente viram comida dentro do rio.
— Não tem como eliminar esses bichos ou tirá-los daqui? — perguntei.
— Ninguém quer esses bichos, eles são uma praga. Matamos muitos desde que descobrimos que eles estavam comendo os porcos, mas parece que eles são mais do que nós pensávamos e agora estão se escondendo por aí.
— E começaram a comer gente — resmunguei.
— É! Comem gente! Pobre Jonas, devorado por um jacaré. Onde está sua avó?
— Ela foi repousar, creio.
— Seu Bartolomeu, o senhor não gostaria de ver de perto o lugar onde... — Paulo parou no meio da pergunta.
— Ah, sim, claro.
III
Quando retornamos a casa minha avó já tinha uma nova visita. Gina era a carola de plantão. Uma mulher magra de rosto ossudo com óculos meia lua na ponta do nariz, vestia uma saia longa cinza e blusa com bolinhas brancas.
— Oh, Dona Lucinda, que bom vê-la de pé novamente! — foi dizendo o velho.
— Olá, senhor Bartolomeu.
— Olá, Gina. Desculpe minha falta de educação. Como tem passado?
— Bem. E o senhor?
— Agora muito preocupado com Dona Lucinda, mas sei que vamos superar esta fase — e virando-se para minha avó acrescentou: — Não é Dona Lucinda?
Minha avó fingiu não ouvir.
— Pelo menos ela tem o senhor — Gina pelo jeito estava do lado do velho.
— Com licença, vou passar um café — disse minha avó tentando livrar-se da conversa que só piorava.
— Eu ajudo a senhora.
— Não precisa!
— Faço questão — enfatizou o velho.
— Como sua avó aguenta? — murmurou Paulo pra mim.
— Antes ele não quase não vinha aqui por causa de tio Jonas, mas agora não tenho idéia do que ela vai fazer.
— Há algum vestígio do corpo de Jonas? — perguntou Gina assim que o casal foi para a cozinha.
— Infelizmente não — respondi.
— Meu Deus! Isso é horrível! Um homem tão bom, tão direito e respeitador... — ela fez uma pausa. — Pobre coitado! Acabar dessa maneira trágica.
— Pelo menos não deixou mulher e filhos.
Virei meu rosto para Paulo e já ia censurá-lo pelo comentário desagradável quando Gina pôs-se a chorar.
— Desculpe, foi algo que eu disse, senhora? — perguntou ele gentilmente segurando-lhe a mão direita.
— Não, não foi nada. É que agora que as coisas pareciam se encaminhar...
— Se encaminhar? — eu não estava entendendo nada.
— Sabe... bem pouca gente sabia, mas seu tio e eu começávamos a nos acertar. Ele já tinha até me beijado — mais um ataque de choro.
— Venha comigo.
Paulo a levou para a área da frente enquanto eu ainda observava sem levantar de onde estava. Depois de tanto tempo parecia que meu tio finalmente tinha encontrado alguém, mas o destino não deixou que a relação seguisse adiante.
Acredito que me perdi em meus sentimentos por alguns instantes com aquele misto de tragédia e comédia, depois vi Paulo falar baixinho com Gina, como se fosse um amigo de longa data que dá forças num momento de dificuldade. Creio que Paulo sempre teve essa característica de fazer amigos e se tornar ouvinte das aflições dos corações deles. Sua capacidade de ouvir e aconselhar era esplêndida e digo mais: ele ganharia muito dinheiro se fosse psicólogo.
Minha avó estava de volta com a bandeja de café. Bartolomeu vinha logo atrás com a boca cheia de bolachas.
— Tire esse velho daqui ou eu vou enlouquecer — disse-me ela entregando-me uma xícara de café.
— Está chorando Dona Gina! — exclamou Bartolomeu.
Rapidamente corri ao encontro do velho e disse:
— O que o senhor acha de deixar as mulheres conversarem a sós?
— Certamente. Creio que eu já me estendi demais em minha visita. Voltarei amanhã, Dona Lucinda. Ou a qualquer hora que o senhor precisar de mim.
— Se precisar avisarei, Seu Bartolomeu.
Paulo conduziu Gina de volta para a sala. A mulher procurava secar os olhos e conter o soluço.
— Graças a Deus aquele velho se foi! Vou acender uma vela para Nossa Senhora Desatadora de Nós.
— Não fale assim que é pecado, Dona Lucinda.
— Pecado é ter aquele traste no meu pé. Já não basta a dor de perder meu filho? Gostaria que ele corresse atrás de você um único dia.
— Deus me livre, Dona Lucinda! A senhora sabe que o único homem que existiu para mim foi seu filho.
— E para mim foi o meu marido.
— Há quanto tempo vocês estavam juntos? — perguntei ainda descrente.
— Um ano e dois meses.
— E não saíram do beijo?
— Miguel! — censurou minha avó.
Paulo ria do meu comentário.
— Desculpe gente, mas vocês já passaram da hora de...
— Eu sou mulher de respeito e fui criada dentro dos princípios da igreja.
— E quando seria o noivado? — questionou Paulo.
— Mês que vem. Durante a festa do porco deste ano. — Ela voltou a chorar.
— Desculpe, mas não queria...
— Paulo, como diria o rei da Espanha: ¿Por qué no te callas?
IV
Nosso terceiro visitante foi Inácio, um dos pecuaristas arruinados pelos jacarés. Inácio era um homem de físico quase grotesco de tão forte, mas com o psicológico, digamos, meio perturbado.
— Dona Lucinda! Meu Deus, como a senhora está? Que tragédia! Eu vim assim que soube. Acharam algum pedaço dele para o enterro?
Os olhos de minha avó abriram-se lentamente e antes que ela colocasse o homem dali para fora eu disse:
— Sente-se, por favor. Não, infelizmente não há sinal de tio Jonas, mas mesmo que ele não seja encontrado faremos a celebração que merecia.
— E olha que merecer ele merecia. Jonas era um doce de criatura. Às vezes até um pouco sonso, mas era por causa de tanta bondade.
Daquele jeito ia ficar difícil, então antes que fosse tarde intervi:
— Vovó, porque a senhora não vai repousar um pouco enquanto nós fazemos companhia para o senhor... como é mesmo seu nome?
— Que distraído eu sou — o homem riu alto como se alguém tivesse contado uma boa piada. Olhei para Paulo e ele levantou os ombros. — Cheguei e nem percebi que vocês não eram daqui, não me apresentei e nem perguntei seus nomes. Desculpem, mas com essa tragédia creio que eu fiquei um pouco nervoso...
— Muito prazer. Miguel.
— Olá Miguel, sou Inácio.
— Este é meu amigo Paulo.
— Prazer, senhor.
— Agora que vocês já se conheceram formalmente vou me retirar. Com licença.
— Fique à vontade, Dona Lucinda, afinal perder um filho não é pra qualquer um, mas perder um filho comido por jacarés deve ser muito pior.
Minha avó já tinha ido e eu pedia aos céus uma maneira de me livrar daquele maluco. Ou Deus ouviu minhas preces rapidamente ou Paulo percebeu que eu estava desesperado e resolveu me ajudar:
— Seus porcos também têm desaparecido, seu Inácio.
— Não tenho mais porcos. Os desgraçados dos jacarés comeram todos. Não sei mais o que vou fazer agora. Minha renda vinha toda dessa criação e agora e agora eu estou arruinado... mas eu matei! Matei muitos daqueles bichos! Só não consigo entender como mesmo com tantos mortos os porcos ainda continuaram desaparecendo mais e mais. Parece que esses bichos estavam se vingando da gente. Eles sabem o que fizemos e agora vão começar a nos comer. Eles querem nos matar.
— Muitas famílias já abandonaram a região?
O homem bateu uma mão na outra e fez uma careta antes de responder:
— Não tô dizendo?! Eles estão querendo ficar com a região toda para eles. Não querem a nossa concorrência. Tudo começou do lado oposto a esta fazenda — ele apontou com o dedo se nós pudéssemos ver.
— Hã! — tentei mostrar algum interesse.
— Eles tinham uma pequena produção e logo tiveram que vender a fazenda para pagar algumas dívidas. Se mudaram para uma cidadezinha do interior do estado.
— E quem comprou a fazenda?
— Não sei direito não, mas sei que o pessoal tá investindo em agricultura. Eu também ia tentar plantar alguma coisa, pois se não é carne eles não comem, porém, se eles vão inventar de comer gente eu quero é distância daqui. Vou vender minha parte e sumir daqui enquanto é tempo. E se eu fosse vocês voltariam para a cidade o mais rápido possível.
— Precisamos ajudar a vovó antes.
— Verdade! — o homem arregalou os olhos. — Levem Dona Lucinda para longe daqui o quanto antes.
V
Apesar dos avisos de Inácio resolvemos permanecer; minha avó queria fazer o velório de tio Jonas ali mesmo na capela da região antes de decidir se deixaria ou não a fazenda.
A cerimônia foi tranquila, contou com a presença de todos os conhecidos da região e Paulo aproveitou para interagir com o grupo.
— Onde já se viu?! Ficarmos a mercê desses bichos! — resmungava um velho barbudo usando chapéu de couro.
— Será que foram os jacarés mesmo? Acho que pode ter sido alguma fera desconhecida — disse uma jovem.
— Que fera desconhecida o quê! Isso são os malditos jacarés mesmo.
— Já houve outros casos assim aqui na região? — perguntou Paulo aproveitando o momento.
— Ah! Isso é sempre uma possibilidade quando se convive com esses bichos — disse o velho.
— Então já comeram outras pessoas? — perguntei.
— Sim, um turista há uns 10 anos e uma criança há menos tempo... creio que três ou quatro anos.
— Mas então os ataques não são costumeiros? — indagou Paulo.
— Não, mas não pense que é porque que é porque eles são bonzinhos — novamente a voz do velho parecia pigarreada. — Isso se deve a esperteza de nossa gente. O povo aqui não é besta. Jonas morreu porque era um pobre coitado. Deve ter se distraído com alguma coisa e foi pego. Mas sabe o que me chama mais atenção: o ataque foi muito longe da água, pelo que fiquei sabendo. Os jacarés não costumam atacar pessoas tão longe da água.
— O bicho talvez quisesse um porco, mas no fim... — deixei a frase incompleta.
— Mas o estranho é que os porcos sempre atacaram durante a noite e Jonas foi morto pela manhã — disse a jovem.
— Muito interessante — afirmou Paulo com um olhar vago.
O velho coçou a barba grossa e amarela e perguntou:
— Sua avó vai vender o sítio?
— Ainda não sei. Ela disse que está pensando sobre o assunto.
— Se for vender peça para Dona Lucinda falar comigo primeiro. Tenho interesse nessas terras há anos e sei que tem um forasteiro aí comprando tudo nessa região. Esse povo da cidade é muito esperto. Sem ofensas — ele sorriu amarelo.
— Por favor, continue — disse Paulo interessado.
— Esse povo da cidade nem vem aqui, mandam seus corretores e fecham negócio. Não estão interessados na nossa região, só querem mesmo é um novo pedaço de terra.
— E quem é esse forasteiro?
— Ninguém sabe, Paulo. Os corretores nem conversam direito com a gente daqui — disse a moça.
— Não é o que tô falando!
— Minha avó ama muito essa região. Creio que mesmo que ela decida mudar para a cidade não venda as terras. Talvez arrende para um vizinho próximo.
O velho me olhou interessado. Creio que pensou em dizer alguma coisa, pois soltou um novo pigarro, mas por fim pediu licença dizendo que ia fumar um cigarro.
— E então, Paulo, o que você faz na cidade? — perguntou a jovem. Ele sempre provocava aquele interesse nas mulheres. Decidi me afastar, afinal, já passei da idade de ficar segurando vela; além disso, Paulo estava precisando mesmo de uma namorada. Não que aquela jovem fizesse o tipo dele, mas como tudo é possível e a moça tinha certos atributos interessantes pedi licença e fui ver como vovó estava.
Creio que minhas impressões sobre os dois, de alguma forma, estavam certas. Paulo e a moça desapareceram por horas. Meu amigo retornou apenas no fim do velório, me puxou para um canto e disse:
— Seu tio não foi comido pelos jacarés.
Talvez eu tenha demorado alguns segundos para processar a informação:
— Como assim?
— Disse que seu tio não foi morto pelos jacarés.
— E então por quem?
— Isso eu ainda não sei, mas tenho duas certezas: primeiro que os jacarés são inocentes.
— Você está brincando, né?
— Não, não estou. E a segunda é que seu tio desapareceu porque sabia demais.
— Como assim?
— Venha que eu te explico melhor.
VI
— Creio que aquela mulher tinha muita informação escondida debaixo da saia porque você voltou todo animado.
— Por favor, Miguel! Você não pode me ver saindo com uma mulher bonita que acha que eu estou transando com ela.
— Não venha com essa, Paulo. Você é o tipo “come quieto” que eu já sei.
— Dá pra deixar minha sexual de lado e prestar atenção na informação e não de onde ela vem?
— Desculpe.
— Alguns fatos estão com pontas soltas e eu não consegui organizá-los ainda, mas o que sei até agora é que os jacarés estão sendo usados como desculpa.
— Você entrou para a sociedade defensora dos répteis agora?
— Não, Miguel, mas há mais coisas nesse caso do que estamos conseguindo ver.
— Do que você está conseguindo, porque eu não estou conseguindo ver nada! Você está sugerindo o quê? Que meu tio foi assassinado? Ah, não, Paulo! De novo não!
— Está reclamando do quê? Você veio para cá investigar um mistério e encontrou um maior do que esperava.
Dei uma volta em torno de mim mesmo com as mãos na cabeça e tentando colocar meus pensamentos em ordem.
— Eu vim por causa dos porcos e não para investigar o assassinato de meu tio... Oh, meu Deus! Estou falando o tempo todo em assassinatos. Há alguma possibilidade dele só ter sido sequestrado?
— Todas as possibilidades existem. Precisamos descobrir quem e por que para eliminá-las e chegarmos à verdade.
— Paulo, você é um amuleto ao contrário. Toda vez que saio contigo acabo no meio de uma grande confusão.
— Pense nisso como um prêmio, uma maneira de movimentar essa vidinha sem graça — ele não aguentou e começou a rir; fazia isso sempre que me provocava. Resmunguei alguma resposta que nem me lembro mais e saí pensando nas novas informações.
Quem mataria meu tio e por quê? Ele não era do tipo que faria mal a uma mosca. O que será que ele teria descoberto de tão grave que lhe custaria a vida? — todos esses pensamentos se emaranhavam com centenas de outros em minha cabeça quando fui abordado por um senhor magricela. Era um negrinho de cerca de 1,50 com os braços e pernas mais ossudos que eu já tinha visto. Os dentes reluziam em brancura e a cabeça em negritude. Creio que o pequeno homem passava alguma coisa para lustrar a cabeça rapada.
Ele estendeu-me a mão e me cumprimentou com alegria:
— Então você é neto de Dona Lucinda?! Fico muito feliz em conhecê-lo, sua avó fala muito em vocês. Sua irmã não veio?
— Não, ela não pode.
— Que pena. Apesar de que com uma situação assim talvez seja melhor manter distância mesmo. Mas me diga: como vai a vida garoto?
Cheguei a conclusão que naquele lugar todo mundo era meio maluco, mas pelo menos este parecia um maluco inofensivo.
— Ótima. A correria de sempre, mas tudo nos conformes.
— Que bom.
— O senhor mora aqui por perto?
— Uns 10 quilômetros, mas não saio dessa casa, pois sua avó é uma pessoa muito querida, sabe?
— O senhor também cria porcos?
— Não. Só como o que a natureza me oferece.
— Vegetariano?
— Não, mas vivo como os antigos índios: da colheita, da caça e da pesca.
— E esses rios têm peixe? Os jacarés andam comendo até os porcos.
— E não é que tem. Esses rios estão cheios de peixes de todos os tipos, mas acho que esses bichos não gostam muito de peixe não.
— Paulo tem que saber disso — murmurei sem querer.
— Quem é Paulo?
— Oh, desculpe, pensei alto. Paulo é um de meus amigos da cidade.
— Ele gosta de peixe?
— Adora, mas gosta mais mesmo é de coisas estranhas.
— Desculpe, eu não entendi.
— Só um momento, eu já volto com ele e o senhor vai contar isso que está me dizendo.
— Tá? — disse o homem sem entender nada.
VII
Cheguei a ficar com vergonha do pequeno homem quando Paulo olhou-me com um olhar que me atravessava enquanto eu, empolgado, tentava explicar sobre os jacarés e os peixes. Mais animado ainda pedi ao nosso novo conhecido que falasse sobre o assunto para meu amigo, mas Paulo parecia um zumbi, estava absorto em seus próprios pensamentos e nos ouvia por uma questão de educação.
Paulo Baruck tinha algumas manias desse tipo quando se empolgava muito com algo, entretanto, com algumas diferenças: às vezes ele ficava assim como acabo de mencionar: desligado do mundo como se fosse um guarda da rainha da Inglaterra e em outras vezes ficava elétrico como uma criança, andava de um lado para o outro, mexia numa coisa qualquer, a recolocava no lugar, ou ajeitava com cuidado. Só não sei o que era pior.
O homem falou dos peixes e dos jacarés a meu pedido, falou de si mesmo e do que fazia naqueles rios, esticou-se na conversa falando de outros animais daquele lugar imaginando que Paulo estava realmente prestando atenção ao que ele dizia. Só quem conhece bem meu amigo sabe diferenciar aquela expressão perdida de uma expressão de concentração, mas para resumir a história ao fim da fala do homem Paulo apertou-lhe a mão e disse:
— Foi um prazer conhecê-lo também. Se um dia passar por nossa cidade leve a família para tomarmos um café juntos.
O homem olhou-me intrigado. Naquele momento eu queria enfiar a cabeça num buraco. Paulo despediu-se dizendo que precisava fazer uma coisa urgente e se foi sem mais demora.
— Creio que ele deve estar preocupado com algo — disse eu com o sorriso mais sem graça que imagino conseguir expressar.
VIII
Saí apressado depois de ser salvo por uma mulher que se aproximava para conversar com o homem magricelo. Alcancei Paulo saindo de carro e entrei sem perguntar aonde ele ia.
— Ainda bem que você veio. Assim posso verificar mais algumas coisas.
— Que coisas, Paulo? Você percebeu que praticamente deixou aquele homem falando sozinho.
— Que homem?
Eu quis xingá-lo, mas me contive:
— O baixinho que estava...
— Ah, sim. Mas a história dele sobre os peixes não tem nada de novo. Nossa história se resume a jacarés, porcos e homens.
— Poderia ser mais claro? Afinal, telepatia não é um dos meus dons.
— Precisamos de algumas informações para que tudo fique perfeitamente claro.
— E? — disse eu esperando algo melhor do que um novo devaneio.
— Imagine Miguel. Use todas as informações que recebemos até agora e imagine o que poderia ter acontecido aqui. Claro que ainda nos faltam as provas físicas, mas pense no cenário e nos estranhos seres que compõem este mistério.
Particularmente detesto esse tipo de gente que fala da coisa mais absurda do mundo como se fosse a mais simples. Lembra-me alguns professores de matemática que tive na escola: “veja, é lógico” — diziam eles. — “A soma dos quadrados dos catetos é igual do quadrado da hipotenusa”. Ou ainda “números inversamente proporcionais divididos em partes iguais correspondem a sei-lá-o-que”.
— Se os porcos estão desaparecendo e os jacarés também só pode ser porque aqui não têm mais comida o suficiente para eles e talvez por isso meu tio tenha virado o café da manhã de alguém — arrisquei a primeira coisa que me veio à cabeça. Às vezes a gente faz isso para não passar por idiota, mas a verdade é que sempre que isso ocorre somos capazes apenas de afirmar o que queríamos ocultar.
— Você não acredita, ou apenas ignora o fato de que eu já lhe disse que nenhum jacaré comeu seu tio?
— Sei que você disse, mas porque matariam meu tio? O que ele poderia saber de tão importante? E principalmente: onde colocaram o corpo?
Estávamos chegando de volta a fazenda de minha avó; Paulo, como sempre, não deu muita atenção às minhas questões. Desceu do carro rapidamente e se dirigiu para o galpão. O segui com a impressão de que a qualquer veríamos o corpo de tio Jonas, apesar de saber que várias pessoas já tinham entrado naquele lugar depois de seu desaparecimento.
Paulo olhou com atenção alguns tranquilizantes para animais, depois examinou o barco que meu tio usava para navegar pelo rio quando necessário, depois leu a embalagem de uma ração especial que meu tio dava para os porcos: uma receita de engorda, como ele mesmo dizia. Por fim ainda vi Baruck dar uma olhada rápida numas botas velhas que estavam jogadas num canto do galpão.
— Há alguma coisa errada? — perguntei.
— Creio que não. Tudo está absolutamente perfeito.
O tom de voz dele não deixava transparecer se aquela era uma observação boa ou ruim. Ele continuou sua inspeção por alguns poucos segundos até que encontrou uma arma usada para aplicar tranquilizantes nos animais, a separou num canto bem visível e disse:
— Podemos dar uma olhada no quarto de seu tio?
Acenei afirmativamente e seguimos em direção a casa. O quarto estava bem organizado e limpo. Apesar da idade vovó continuava muito cuidadosa.
Paulo fez uma rápida inspeção no quarto, mas creio que não encontrou o que procurava. Deu um suspiro leve e pediu para que eu o acompanhasse.
— Aonde vamos?
— De volta ao galpão. Preciso de sua ajuda para levar o barco até a beira do rio.
— Como assim?
— Esta noite vamos dar uma volta no rio.
Parei petrificado. Rio? Jacarés? De noite? Ele só poderia estar louco!
— Paulo, espere aí. Nem por um milhão eu entro num barco, naquele rio e ainda por cima durante a noite. Pode arranjar outra maneira de se matar e principalmente pode me excluir de qualquer dessas suas idéias suicidas. EU NÃO VOU!
IX
Acho que é por isso que Joana e eu nos damos tão bem. Ela também detesta perigo e quaisquer outras situações que fujam do seu controle.
Paulo acabou me convencendo a entrar naquela “canoa furada”. Sei que pareço não ser muito firme nas coisas que digo, mas meu amigo é uma figura que inspira confiança mesmo nas mais desafortunadas situações.
Pedi ao homem magricela que nos acompanhasse já que ele conhecia o rio e os caminhos daquele lugar durante a noite. Paulo disse que era uma ótima idéia e então fomos os três.
A noite estava quente e úmida como quase sempre naquela região. A lua brilhava num tom avermelhado e eu imaginei que aquilo poderia ser um mau presságio, mas não disse a ninguém para não parecer que estava com medo.
Paulo estava aparentemente tranquilo. Na verdade, creio que ele nem pensava nos riscos de nossa empreitada. Todas as vezes que alguma idéia o consumia por dentro ele mergulhava de cabeça esquecendo-se dos possíveis perigos, o problema é que ele também se esquecia de me perguntar o que eu pensava de suas idéias malucas e pior: incluía-me nelas sem o mínimo de receio.
Quanto a nosso amigo baixinho e magricela, ele estava bastante interessado no que estávamos fazendo. Fez algumas perguntas, mas tanto Paulo quanto eu procuramos nos esquivar delas e creio que ele percebeu isso, pois passou a nos mostrar as belezas e os perigos da noite. Podíamos ver nitidamente os olhos brilhantes dos jacarés emergindo na superfície da água.
De repente houve uma batida brusca no barco.
— Fiquem calmos, foi apenas um jacaré, passando debaixo do bote.
— É. Quase o pouso de um beija-flor — censurei amargamente.
Paulo deu instruções para que aportássemos numa região segura que desse acesso às fazendas do outro lado do rio.
Andamos, andamos muito! Por várias vezes pensei em desistir e me sentar, mas aí vinha a imagem dos jacarés dentro do rio e eu andava alguns metros a mais. Creio que meu cansaço era tamanho que parte do que vimos naquele dia desapareceu de minha mente. Vimos de longe a primeira fazenda vendida, pois os novos donos tinham muitos cachorros e eles perceberam nossa presença bem antes de nos aproximarmos. Retornamos para a margem do rio rapidamente antes que os cães se aproximassem e de volta ao barco constatamos que toda a região próxima ao rio estava pisoteada.
— Alguém esteve aqui — comentei.
— Na verdade acho que alguém tem usado muito este lugar — corrigiu Paulo.
— Devem ser pescadores — supôs o homenzinho.
— Acho que não. Alguém parece ter andado muito por aqui. Ou este lugar é uma mina de peixes ou os jacarés não costumam frequentar esse lugar.
— Sabe que você tem razão, moço. Esta parte do rio é rasa e por isso os peixes grandes não costumam ficar aqui.
— Será que vocês podem discutir os hábitos animais no barco? — questionei vendo um daqueles répteis enormes saindo da água em nossa direção.
Vagueamos pelo rio de cima a baixo. Particularmente eu estava achando aquilo uma perda de tempo, além de perigoso, é claro; contudo, Paulo parecia muito contente com o passeio. Ele e o homenzinho até já conversavam com bastante intimidade.
No retorno para casa eu era o primeiro da fila de quando finalmente estávamos nos aproximando da casa de minha avó vi uma lanterna se movimentando bem perto da casa.
— Espere! — disse eu apontando.
Paulo e o homenzinho pararam e observaram com atenção. Neste momento a luz desapareceu.
— Apague a lanterna — disse nosso pequeno ajudante.
— Seja quem for percebeu a nossa presença — comentei.
O homenzinho tomou a frente e nos guiando andamos alguns metros no escuro esperando que a lanterna voltasse a aparecer.
— Vovó está correndo perigo aqui.
— Sua avó é esperta, moço.
— É esperta, mas dorme como uma pedra com os remédios que toma.
— Ela toma remédios para dormir todas as noites? — perguntou Paulo.
— Sabe que eu não tenho certeza.
— Ligue sua lanterna e vamos terminar de chegar em casa para podermos descansar, pois amanhã vai ser um dia cheio de surpresas.
Não quis perguntar o que aquilo queria dizer. Eu precisava mesmo era dormir, estava cansado demais para pensar em qualquer coisa e, além disso, sabia que Paulo não me contaria nada antes do tempo: outra mania dele, só que esta tinha sido adquirida durante nosso primeiro caso juntos.
X
Quando acordei o almoço já estava na mesa e Paulo tinha saído. Havia deixado um recado dizendo que voltaria a tempo apenas e jantar conosco. Tentei imaginar aonde ele teria ido, mas minhas reflexões sobre o assunto não foram muito longe.
Aproveitei o dia para conversar com vovó. Ela me fez muitas perguntas: por que eu tinha saído no meio do velório, aonde eu tinha ido, fazer o que; seguindo para nossa inspeção noturna: a que horas tínhamos retornado, o tínhamos ido fazer no rio durante a noite. Um verdadeiro interrogatório de uma velhinha que era muito gentil e atenciosa, mas que quando queria também sabia ser controladora e dura.
E assim conseguimos resolver alguns pontos importantes. Ela frisou que não sairia daquela casa mesmo depois de todos os acontecimentos. Disse-me ter conversado com outro fazendeiro e ele lhe prometeu conseguir um caseiro de confiança para cuidar da propriedade e dela também. Explicou-me que o tal caseiro moraria na casa dos empregados que estava fechada havia anos. Tudo estava acertado e eu resolvi não discutir, afinal tentar mudar a idéia de um velho é uma batalha perdida.
Paulo retornou por volta das sete da noite. Disse que precisava de um banho e que conversaria conosco depois.
Vó Lucinda e eu estávamos na sala quando ele retornou anunciando:
— Preciso dizer que tenho duas notícias para vocês e como sempre uma é boa e a outra é ruim.
— Primeiro a ruim — disse eu.
—Primeiro a boa — disse vovó.
— Então vamos por ordem de obediência — disse Paulo se sentando a nossa frente. — Seu filho não morreu Dona Lucinda. Jonas está vivo.
— Sequestraram ele?
— Não, Miguel.
Vovó trazia uma expressão de surpresa e descrença no rosto. Ajeitou-se no sofá esperando, possivelmente, a notícia ruim, porém Paulo continuou:
— Seu tio está vivo e bem. Acontece que o tio Jonas que vocês conheciam não existe mais.
— Como assim?
— É, Paulo, como assim? Não estamos entendendo nada.
— Todas as informações que tive sobre seu tio dizem que ele era uma pessoa mansa, pacata e às vezes até sonsa. Acontece que talvez ele tenha cansado dessa imagem e resolveu desaparecer.
— Você quer dizer que ele foi embora? Impossível! Jonas não conseguiria comprar as próprias cuecas.
— Talvez este tenha sido o problema durante toda a vida dele e só agora ele conseguiu se libertar da dependência que tinha da senhora e finalmente procurar viver a vida dele de forma independente.
— Já passou da hora. Só acho que ele não precisava desaparecer assim. Acabamos pensando que ele tinha sido comido pelos jacarés.
— E aí surge a má notícia, Miguel. Seu tio Jonas simulou a própria morte — fixamos nossos olhares extasiados em Paulo. — Mas não foi só isso: elaborou uma maneira de levar os fazendeiros da região a falência para adquirir suas terras e lucrar cada vez mais.
“Aos poucos ele conseguiu acabar com a concorrência da fazenda que faz fundo com esta. De madrugada estraçalhava os porcos e jogava para os jacarés nos rios e quando o dia amanhecia não havia mais o que ser feito. Assim criou a lenda dos jacarés que comiam os porcos. Porém esses animais de sangue frio têm a digestão muito demorada, às vezes levam até uma semana para digerir uma boa refeição. Era impossível que esses ataques fossem tão frequentes quando pareciam ser.
“Assim Jonas comprou a primeira fazenda e pôs em prática seu plano. Como todos pensavam que era culpa dos jacarés ele passou a sequestrar os porcos dos chiqueiros e levá-los para sua nova fazenda. Os compradores passavam três vezes por semana e levavam os porcos para o frigorífico, ou ainda para outra propriedade longe daqui.”
Com todos matando os jacarés ficou ainda mais fácil navegar por esses rios durante as noites carregando os porcos nos barcos.
— Mas como ele fazia isso sozinho?
— Com certeza ele começou isso sozinho, mas com o tempo precisou de ajudantes, afinal, nem todos os chiqueiros devem ser como o de vocês que são bastante próximos do leito do rio; mas aí ele com certeza já tinha dinheiro o suficiente para pagar alguém para fazer o serviço sujo pra ele.
— Mas e Gina? O noivado?
— Parte do plano, Dona Lucinda. Como ele já tinha a idéia de fingir a própria morte precisava fazer com que as pessoas pensassem que ele tinha planos para o futuro.
— Mas isso é horrível e arriscado. A polícia podia desconfiar.
— Você viu como a polícia agiu, Miguel. Jonas sabia muito bem que eles não teriam muito a fazer e nem se preocupariam com o caso de alguém devorado pelos jacarés, ainda mais depois de tantos ataques aos porcos.
— Não posso acreditar que meu filho tenha feito tudo isso. Ele sempre foi tão caseiro, quieto... — os olhos de Dona Lucinda se encheram de lágrimas que rolavam pelo seu rosto.
— Acalme-se vovó.
— Ele arruinou o sustento da própria família! — disse ela secando os olhos.
— Ele sabia que a senhora não precisava dessa renda para viver, pois a pensão de seu marido e o seguro de vida que ele fez a deixaria muito confortável.
— Ele fez um seguro de vida para a senhora, vó?
— Fez, mas isso já tem muitos anos. Eu o beneficiava e ele a mim, mas eu não quero esse dinheiro imundo... Onde Jonas está?
— Possivelmente ainda escondido numa das fazendas que comprou, mas aposto que é nesta mais próxima cruzando o rio, pois ele esteve aqui ontem.
— Então era ele?! — levantei assustado.
— Era.
— O que ele veio fazer?
— Não sei, mas talvez estivesse preocupado com sua avó.
— Preocupado? Fazendo isso? Quero que ele devolva tudo o que roubou! Não consigo imaginar como Jonas pode ser tão cruel com tantas pessoas que viviam disso.
— Mas ele vai ser preso.
— Que seja, Miguel. Não foi assim que eu o criei — ela desabou num pranto incontrolável, tremia muito e respirava com dificuldade. Busquei um de seus calmantes e a coloquei na cama. O remédio demorou um pouco para fazer efeito, mas enfim ela dormiu.
Paulo estava sentado no mesmo lugar que eu o havia deixado.
— Desculpe — foi logo dizendo.
— Acho que foi a melhor coisa. Até agora não acredito que o bobão do tio Jonas conseguiu bolar um plano desses e enganar todo mundo. Como você descobriu?
— Convenhamos que a história dos porcos comidos pelos jacarés estava muito estranha. Imaginei que alguém estava se aproveitando da situação e cheguei a pensar que seu tio tinha descoberto isso e por causa do que sabia tinha desaparecido. Entretanto, comecei a pensar que esta fazenda e a que foi atacada primeiro tinham a mesma probabilidade de serem alvos de ataques, contudo, os animais de sua avó só começaram a ser atacados bem depois e nunca em número tão grande quanto as fazendas vizinhas, pelo que você mesmo disse.
“Outra pista foi o relacionamento dele com Gina. Havia algo estranho num solteirão que mora com a mãe querer esconder um dos poucos relacionamentos que já teve. Me pareceu cena demais para pouca coisa.”
— Mas até aí nada concreto, certo? Tudo poderia ser uma simples coincidência.
— Verdade. Então me pus a analisar os pontos de ataques e vi que o rio era o encontro de todos eles. Para algum lugar esses porcos estavam indo e a única propriedade que ninguém conhecia o dono era aquela vendida recentemente. Teria que ser para lá então.
“Seu tio possuía muito tranquilizante e uma arma de lançamento de dardos dos mesmos tranquilizantes. Coisa, digamos, desnecessária para um criador de porcos. As botas abandonadas no galpão ainda estavam sujas de lama do rio, mas o que o denunciou foi que ele pisa com os dois pés voltados para dentro e desgasta o bico das botas. Botas estas que marcam toda a margem do rio num vem e vai interminável.
“E não se esqueça da quantidade de cachorros intencionando afastar qualquer curioso daquela fazenda.
“Fui até a cidade e verifiquei que o caminhão do abatedouro passa por aquela fazenda três vezes por semana e sempre depois das seis da tarde. E para finalizar: a escritura da propriedade está registrada em nome de Basílio Pascoal da Silva.”
Arregalei os olhos ao ouvir o nome de meu pai, Paulo acenou-me com a cabeça confirmando o que meus ouvidos não queriam acreditar.
— Que sem vergonha! Se meu pai estivesse vivo daria uma surra em tio Jonas.
***
Tio Jonas foi preso na manhã seguinte. A fazenda vendida e serviu, juntamente com o dinheiro apreendido, para indenizar as famílias lesadas. Ele continua preso e se depender de mim nunca mais sairá de lá.
Minha avó mudou-se para uma chácara mais próxima da cidade onde às vezes eu ainda vou passar o final de semana.
Quanto a Paulo há bastante tempo que não o vejo, mas vez por outra ele aparece na TV ou na internet, apesar de não ser muito fã dos holofotes. Seu nome sempre aparece associado a algum caso aparentemente sem explicação ou estranho o bastante para chamar sua atenção e geralmente desprezado pela polícia.
Marcos Morasck
(março de 2011)
Morte no shopping
I
Todos os dias o gênero humano tira proveito do gênero humano, mas nem todos os dias a história se repete. Caça e caçador se alternam na tarefa de criar momentos como os descritos a seguir.
Luan era um jovem sonhador. Sonhava em trabalhar, crescer, fazer parte de uma família feliz, já que não tivera família. Abandonado aos dois anos de idade, fora criado num orfanato, depois tinha morado com um amigo aqui, com outro ali e agora morava num quitinete num subúrbio mal-cheiroso.
Começara a trabalhar numa loja do Maximus Shopping havia mais ou menos seis meses. Tudo parecia finalmente ter se encaminhado em sua vida até aquela noite.
Eram cerca de 10 horas da manhã quando a polícia entrou na loja. Perguntaram por Luan e outra vendedora o apontou no fundo da loja. O cliente que ele atendia não percebeu de imediato, pois estava entretido com uma camisa, mas o rapaz viu os pares de olhos fuzilando-o a distância; de repente o cliente sentiu que algo estava errado e pediu para experimentar a camisa e rapidamente mergulhou no provador ouvindo o policial pedir para falar com o vendedor.
— Claro — Luan tentava ser firme nas palavras.
— O senhor conhece esta mulher? — uma foto lhe foi passada.
— Claro que sim. É a Cíntia. Ela era funcionária da loja, mas ela saiu já tem uns três meses.
— Os outros funcionários da loja ainda são os mesmos?
— Não. Só eu. O gerente entrou faz uns dois meses e a outra moça começou semana passada. Aconteceu alguma coisa?
— Quando foi a última vez que o senhor a viu?
— Na quinta-feira, creio. O que houve?
— Ela apareceu morta nas imediações do lago no final de semana.
— Morta! Como?
— Assassinada ao que tudo indica.
— Meu Deus! Quem faria uma coisa destas e a troco de quê?
— Justamente o que estamos investigando.
A conversa seguiu aparentemente normal. Os policiais solicitaram mais algumas informações, anotaram algumas num bloquinho e se despediram. Luan tentava parecer tranqüilo, mas a presença dos policiais na loja começava a perturbá-lo. Talvez estivessem desconfiados de que...
— Será que o marido dela descobriu e...
— O marido de quem, senhor?
De repente ele voltou a realidade. O cliente estava diante dele estendendo-lhe algumas camisas.
— Desculpe, senhor. Estava pensando alto, apenas.
— Não há problema. Vou levar essas aqui.
— Ah! Sim, desculpe, senhor. Estou um pouco distraído.
— Percebi, não pude deixar de ouvir a conversa. Se precisar de alguma ajuda posso oferecer-lhe meus serviços.
— O senhor é policial?
— Um tipo de investigador nas horas vagas. Desculpe, não me apresentei. Paulo Baruck.
— Baruck? Creio que já ouvi seu nome...
— Pode ser que sim, mas em todo caso se precisar de algum auxílio com relação a morte de sua amiga, pode me procurar.
Luan percebeu a entonação da palavra amiga e guardou o cartão oferecido por Paulo no bolso da camisa. No entanto, assim que Paulo saiu da loja ele jogou o cartão no cesto de lixo.
— A última coisa que eu preciso é de um investigador.
II
O gerente da loja chamou Luan para conversarem durante o almoço daquele mesmo dia. Douglas era um homem sardento de pouco mais de quarenta anos. Tinha os olhos rápidos e o raciocínio mais rápido ainda. Por algum acaso do destino — pelo que todos sabiam — tinha perdido quase todo o patrimônio que construíra durante anos, mas tinha ótima experiência administrativa e por isso foi contratado com um gordo salário por aquela filial de uma marca de camisas famosa no mundo todo. Entretanto, gerente de uma loja de marca de renome não era um objetivo na vida de Douglas, ele queria mais, muito mais.
— Cuidado com o que você diz para a polícia, ou eles podem desconfiar de algo. Sabe como é: uma coisa puxa a outra e no final a gente se lasca.
— Pode ficar tranqüilo, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
— Mas a culpa disso tudo é sua. Quem manda você se meter com mulher casada!
— Você acha que o marido dela a matou?
— Se ele tivesse feito isso você já saberia.
— Verdade.
— Agora vê se não se mete com a funcionária nova.
— A Lara? Ela é muito sem-gracinha.
— Pode até ser, mas que ela tem umas pernas bem interessantes — ele riu satisfeito.
— Quando a polícia estava lá hoje um certo de Paulo Baruck ouviu toda a conversa, me ofereceu ajuda coisa e tal... Sei que já ouvi esse nome, mas não me lembro onde.
— Certeza que ele não é policial?
— Disse que não. Disse que é investigador nas horas vagas.
— Investigador pra mim é polícia do mesmo jeito. Mas realmente este nome realmente não me é estranho.
Douglas abriu o notebook e digitou o nome de Paulo na internet. Passou os olhos com atenção sobre a primeira matéria que encontrou e voltou-se para Luan.
— Afaste-se dele. Esse cara é problema. Aqui diz que ele é fã em solucionar mistérios e tem ajudado a polícia a resolver os mais diversos casos, ou seja, é o tipo de gente que estamos querendo distância.
III
— Alô, Paulo Baruck?
— Sim, quem gostaria?
— Aqui quem fala e Lara. Sou funcionária da loja na qual o senhor comprou algumas camisas hoje pela manhã e precisaria pedir-lhe um favor.
— Pois não, pode falar.
— É um problema sigiloso. Prefiro falar pessoalmente.
— Certo. Onde podemos nos encontrar, então?
— Na praça de alimentação do shopping está bem para o senhor?
— Ótimo.
— No final da tarde?
— Estarei lá.
Lara desligou o celular sorridente. Jamais tinha sido tão ousada, mas havia decidido que precisava se arriscar mais, ou a vida nunca lhe sorriria.
Lara era uma moça de boa família. O pai era funcionário público federal e a mãe professora em uma escola de música, tinha apenas um irmão que morava no exterior e ela própria cursava a faculdade de publicidade no período noturno. Tinha começado a trabalhar no shopping com o propósito de ganhar certa independência financeira. Claro que os pais tinham dinheiro o suficiente para sustentar suas despesas até que terminasse a graduação e pudesse trabalhar, mas Lara estava cansada dessa dependência, queria fazer algo por si mesma, mostrar para todos que era capaz.
Ela tinha sido uma garota tímida durante quase toda sua infância e adolescência. Começou a mudar de postura, mas não tinha astúcia o suficiente para jogar aquele jogo de adulto; acabou sendo enganada, trocada e ferida. Tencionou por muitas vezes se vingar e acabou demorando alguns anos para perceber que tinha que seguir adiante, mas já estava forte o bastante naquele momento e disposta a arriscar todas suas fichas de novo, mas desta vez com razão aliada à emoção.
À distância Lara viu Paulo chegar desconfiado, dar uma volta pela praça de alimentação e desaparecer por algum tempo.
— Você demorou.
Lara quase caiu das próprias pernas ao ouvir aquela voz bem atrás dela. Virou-se assustada e tentou dizer alguma coisa, mas conseguiu apenas balbuciar algumas palavras sem nexo.
— É melhor sentarmos.
— Também acho. Como você sabia que era eu?
— Meu divertimento é saber das coisas. Mas isso não vem ao caso. Em que posso ajudá-la?
— Se seu divertimento é saber das coisas você já sabe o que eu quero.
— Desculpe, mas meus super poderes não chegam a ler mentes.
— Nem sinais?
— Você não me chamou aqui para pedir um conselho, chamou?
— Não. Chamei-o para podermos nos conhecer melhor.
Paulo gargalhou.
— O que houve? — perguntou ela preocupada.
— Nada. Você poderia ter sido mais discreta, mas gostei de sua perspicácia. Meu último relacionamento foi uma grande decepção, mas creio que está na hora de arriscar algo novo.
— Então estamos praticamente na mesma.
A conversa seguiu animada, falaram sobre um monte coisas, lancharam, trocaram telefones e e-mails e marcaram de ir ao cinema no final de semana. Porém mal sabiam que estavam sendo observados do piso anterior. Douglas estudava o casal com atenção e já planejava o que fazer para livrar-se dos dois.
IV
Pouco tempo depois, na loja, Douglas parecia preocupado e ficou mais preocupado ainda quando Luan informou-lhe que Lara tinha se mostrado bastante curiosa com relação ao estoque. Fez várias perguntas: procedência, transportadora, número de distribuidores na cidade... Mal sabia ela que o que poderia ser encarado como prática de interação e aprendizado no trabalho transformou-se rapidamente em ameaça aos lucros alheios.
Douglas pediu para que Luan se retirasse e ligou para Lara. O shopping já estava fechado, mas ainda havia alguns funcionários organizando suas respectivas lojas.
— Lara, é Douglas. Tivemos um problema em uma de suas vendas e o cliente está aqui. Será que você poderia dar um pulinho aqui para solucionar um mal entendido?
— Tem que ser agora?
— Você já está em casa?
— Ainda não, mas estou cansada a beça.
— Será rapidinho.
Quando Lara chegou a loja estava meio que às escuras. Um arrepio percorreu-lhe a espinha.
— Nossa! Que corrente de ar! — Empurrou a porta devagar —. Douglas! Você ainda está aqui?
— No escritório, Lara.
Havia apenas uma meia luz ligada.
— O que houve, Douglas? Onde está o cliente?
— O cliente sou eu, Lara e gostaria de saber o que você andava fazendo conversando com um investigador hoje a tarde.
— Como? Paulo?
— É apenas um flerte... O que isso tem a ver com o meu trabalho aqui?
— Isso sozinho nada, mas agregado ao fato de que você anda muito curiosa sobre a procedência dos nossos produtos.
— Sim, mas...
— Quem mandou você bisbilhotar aqui?
— Ninguém... Eu não estou...
— Pessoas como você a Cíntia se dão mal porque querem saber demais. Mesmo depois de despedida ela ainda continuava xeretando nos nossos negócios e por isso teve o fim que mereceu.
— Como? Você a matou?
— E farei o mesmo com você se continuar com sua curiosidade.
De repente eis que surge Luan:
— Você matou Cíntia?
— O que você está fazendo aqui? Não mandei você ir para que eu desse um jeito nessa exibida.
— Você é louco! Você matou minha Cíntia!
Douglas sacou do revolver e Lara soltou um grunhido agudo antes que ele mandasse-a calar a boca. Luan ficou imóvel colocando a mente para trabalhar rápido. Precisava fazer alguma coisa, olhou para Lara que tremia como se fosse congelar. Claro que era uma situação de risco, mas se ele já tinha matado uma pessoa era preciso arriscar; visualizou um estilete sobre a mesa, analisou a posição da cadeira entre os dois e resolveu agir. Deu um chute com toda sua força na cadeira tirando a atenção de Douglas enquanto numa fração de segundos agarrava o estilete de sobre a mesa e jogava-se sobre o adversário que não conseguiu mirar, mas disparou o primeiro tiro que atingiu uma das janelas, que se partiu, mas não quebrou.
Um novo disparo e em seguida tudo ficou quieto. Lara permanecia petrificada no canto com a respiração pesada, os olhos esbugalhados e a face praticamente sem vida; lentamente viu Luan se levantar e pensou: estou salva.
Luan deu dois passos a diante e perguntou se ela estava bem. Lara assentiu com um gesto tímido.
— Segure um segundo, por favor, vou chamar a polícia — ele estendeu-lhe a arma e ela ainda apavorada e muda abriu a palma da mão. E num único empurrão ele jogou-a contra a janela partida lançando-a morte.
V
Na mesma hora Luan ouve um dos seguranças do shopping chegando. Precisava ser convincente — repetiu para si mesmo. Correu em direção a saída da loja de braços abertos:
— Por favor, alguém me ajude!
— Calma, calma, ouvi tiros, você está ferido?
— Não, não, mas Douglas está. Chame uma ambulância.
— Já foi providenciada, a polícia também está chegando ai. Acalme-se. Me conte o que houve aqui.
— Lara atirou em Douglas e tentou atirar em mim só que eu a empurrei e ela caiu pela janela.
Foram até Douglas e o segurança verificou se havia batimentos, depois acenou negativamente com a cabeça enquanto Luan sorria por dentro e lamentava por fora. Olharam pela janela que dava acesso a parte central do shopping e neste momento a paz de Luan lhe foi retirada. Havia um grande boneco de ar logo abaixo da janela por onde Lara tinha caído e nem sinal do copo dela lá embaixo.
— Acho que ela sobreviveu a queda — comentou o segurança.
— Realmente. Essa mulher é perigosa, precisamos fazer alguma coisa.
— A polícia já está chegando e ninguém entra nem sai do shopping.
Quando saíram no corredor perceberam que uma aglomeração havia se formado. Vários funcionários do shopping estavam ali curiosos com relação aos disparos. O segurança explicou-lhes rapidamente e disse que seria melhor todos permanecerem juntos, pelo menos até que os policiais chegassem.
VI
Algum tempo antes Lara era lançada pela janela. Sentiu o impacto do vidro das costas e depois a leveza do que parecia ser os braços da morte. Numa fração de segundos repetiu para si mesmo que precisava viver. Esperou o impacto e ele veio uma, duas, três vezes e depois a cabeça chacoalhou como se fosse um grande sino fazendo com que ela pensasse que estava morta, mas quase que instantaneamente começou a sentir o corpo dolorido pelo choque. Tinha sobrevivido.
O foco demorou voltar e quando voltou havia algumas pessoas observando-a curiosas. Pensou em pedir ajuda, mas neste momento viu um par de cabeças estendido através da janela de onde ela tinha saído, mas, por sorte, daquele ângulo de visão eles não poderiam vê-la.
— Você está bem? — perguntou uma mulher aproximando-se.
Lara tentou articular alguma coisa, mas não conseguiu. Pôs-se de pé sentindo a boca sangrar.
— O que aconteceu? — a mulher estava assustada e uma terceira se aproximava quando de repente ouviram pelo sistema de som do shopping o segurança alertar:
— Pedimos a todos que subam para o terceiro andar, pois há uma mulher armada e que pode ser perigosa solta pelo shopping. A polícia chegará em alguns minutos e tudo ficará bem.
As mulheres pararam estupefatas, trocaram olhares e correram em direções opostas a de Lara. Ela esforçou-se para organizar os acontecimentos e os pensamentos. Concluiu três coisas:
Precisava de ajuda.
Não poderia ser apanhada.
Daria o troco.
VII
Mais alguns minutos e o som da sirene da polícia povoou os arredores do shopping. Minutos suficientes para que Lara encontrasse um lugar seguro e se escondesse. Ao perceber que a polícia havia chegado ela quase não conseguiu controlar as batidas de seu próprio coração. Sentiu o sangue fluir para a cabeça em grande velocidade e chegou a imaginar que as têmporas iam explodir.
Sabia que não poderia ficar escondida a vida toda e então se pôs a bolar uma maneira de sair daquela cilada, entretanto, o frio e a escuridão não estavam ajudando. A todo instante era como se a encontrassem, cada som era um tormento e uma angústia e a ausência deles também eram insuportáveis. Controlou a respiração como se alguém pudesse ouvi-la a distância e por fim, já mais calma, teve uma idéia.
Pegou o celular e apertou o botão de chamar duas vezes.
— Paulo? — a voz dela era sussurrada.
— Olá, querida! — respondeu ele do outro lado da linha —. Já está com saudades?
— Estou é numa grande enrascada.
Como eu não pense nisso antes? Sou realmente o mestre de me meter em confusão — pensou ele enquanto ela continuava contando-lhe parte dos fatos. A princípio Paulo achou aquela história um tanto fantasiosa, mas olhou pela porta de acesso a sala e viu a manchete no telejornal: Morte no Shopping.
Era realmente verdade.
Pediu para que ela esperasse um segundo e ouviu as notícias dadas pela televisão. Explicou-lhe rapidamente do que ela estava sendo acusada e afirmou que arranjaria uma maneira de ajudá-la; só não tinha a mínima idéia de como conseguiria tal feito. Desligou o celular dizendo para que ela ficasse onde estava e que não se preocupasse.
Paulo pegou um jaleco branco que estava enfiado numa das gavetas do guarda-roupas e saiu guiando apressado em direção a casa de uma amigo repórter.
Depois guiou em direção ao shopping. Desceu do carro apressado retirando o jaleco e atirando-o na lata de lixo, pegou uma valise de sobre o banco do carona e seguiu na direção dos policiais que faziam a segurança do local.
— Eles ainda estão no terceiro andar? Qual é o acesso liberado? Onde vão estacionar a ambulância? — foi despejando ele enquanto avançava sobre os guardas.
— Espere um momento, quem é o senhor?
— Dr. Baruck, mas sei que o senhor já foi informado de minha chegada. Precisamos ser discretos e agir rápido.
— Desculpe, senhor, mas não fui informado de nada.
— Então lhe informo eu: vim para ajudar os funcionários que ainda estão presos no terceiro andar, mas recebi recomendações para ser o mais discreto possível e por isso pretendo não usar o jaleco para me igualar aos demais.
— Mas ninguém info...
— Certo, mas logo, logo vão informar de pessoas mortas lá encima para o senhor buscar e morta por quê?
— Por que não tinha nenhum médico perto para prevenir possíveis ataques e porque não tinha nenhum médico lá no terceiro andar? Porque o pessoal da portaria não foi informado! — ele apontou o indicador para o nariz de ambos os policiais.
— Deixe-me confirmar...
— Deixo; o senhor não quer também a minha carteirinha da ordem? — Paulo disse com sarcasmo —. O que eu poderia querer num lugar onde está morrendo gente? Matar? Faça-me o favor de me acompanhar até onde estão os necessitados, senhor... Como é mesmo seu nome?
— F...
— Esqueça, deixe que eu irei sozinho.
Os dois policiais deram de ombros e Paulo passou segurando a valise de modo imponente.
— Ufa! Passei — resmungou ele entre dentes.
Paulo foi direto até o terceiro andar, perguntou se estava tudo bem e apresentou-se como médico. Deu um calmante de falso para uma, um analgésico para outra e colheu informações de todos; esteve perto o bastante para visualizar a cena do crime e perceber que o que Lara havia relatado era a mais pura verdade. Não conseguiu avistar Douglas e sentiu-se tranqüilo por isto, já que ele seria o primeiro a reconhecê-lo.
Disse a todos que ia procurar alguém no andar de baixo e desceu pelas escadas estudando a movimentação dos policiais pelo shopping. Disse para si mesmo que eles não conseguiriam encontrar um elefante pintado de rosa com aquela circulação desordenada.
Saiu do campo de visão de todos e desceu para o primeiro piso, andou apressado em direção a ala esquerda do shopping e quando virou o corredor deu de cara a cara com Luan:
— Senhor Baruck, o que faz aqui?
— Acabei ficando preso.
— Policiais este homem esteve bisbilhotando a loja hoje de manhã e durante a tarde estava conversando com Lara depois do expediente. Ele deve estar envolvido, afinal só os funcionários do shopping ainda estavam por aqui.
— Senhor Baruck, poderia nos acompanhar? — perguntou um dos homens.
— Só se alguém pagar a pipoca, pois estou sem grana.
— Interessante senso de humor, senhor Baruck, aposto que a polícia vai achar essa conversa bastante interessante.
— Aposto que eles achariam mais interessante um exame de balística feito em você — Paulo riu com o canto da boca.
— Do que está me acusando, senhor investigador?
Os policiais posicionaram-se ao lado de Paulo e quando iam algemá-lo ele se desvencilhou dos dois, retirou a pistola da cintura de um deles e apontou-a para a cabeça de Luan.
— O que você pensa que está fazendo?
— Deitem no chão agora, ou eu estouro a cabeça dele.
Os policiais obedeceram, Paulo os algemou, chutou a arma para longe e disse para que Luan seguisse enfrente. Quando já estavam a uma boa distância Baruck ordenou que o refém esvaziasse os bolsos.
— De investigador a ladrão: essa é nova para mim.
— Não estou roubando, em breve devolverei tudo.
— Você entrou numa fria isso sim. Se Lara tivesse morrido quando deveria nada disso estaria acontecendo. A morte de Cíntia estaria vingada e amanhã teríamos um lindo enterro do chefe. Só não entendi quando você entrou nessa...
— Entrei quando houve uma injustiça.
— Se eu te contasse minha vida você saberia o que é uma injustiça.
— E por isso você se dá o direito de acabar com a vida dos outros?
— Deus acabou com a minha assim que eu nasci e nem pediu permissão.
Paulo fitou-o com pesar, mas não respondeu, ao invés disso ordenou que ele corresse.
— Como assim?
— Corra o mais rápido que você puder.
— O que você vai fazer?
— Corra!!
Luan saiu em disparada enquanto Paulo desaparecia por uma porta entreaberta.
VIII
Minutos depois aquele corredor estava cheio de policiais armados.
— Isso aqui está piorando! — ralhou o chefe do corpo de polícia —. Agora temos dois desaparecidos, armados e perigosos. O senhor não parece ser uma pessoa de muita sorte.
Luan sorriu amarelo. Realmente não estava com sorte, mas disse para si mesmo que sua sorte mudaria em breve, afinal já tinha lutado muito para chegar onde estava e de maneira alguma voltaria a estaca zero. Estava cansado de ser um mero joguete do destino; daqui para frente construiria sua própria história. Nunca tinha visto ninguém bonzinho que tivesse as coisas que ele queria, mas sabia que ele estava pronto para qualquer coisa a fim de consegui-las.
Andou sozinho pelo saguão do shopping refletindo sobre o que fazer e onde Paulo e Lara estariam escondidos. O shopping era grande demais e os esconderijos poderiam ser os mais variados. Irritou-se com a incompetência dos policiais por alguns segundos e depois voltou a sorrir, afinal precisava manter a calma e parecer confiável.
Tentou imaginar o que Paulo poderia querer com os objetos desapropriados dele, sabia que tinha que ser algo importante, mas não conseguiu deduzir o que era.
Um novo grupo de policiais foi chamado para reforçar as buscas e começaram a varrer o shopping de baixo a cima. As instruções eram para que revirassem tudo o que fosse preciso para encontrar os dois fugitivos.
Paulo observou a entrada do novo grupo de policiais e soube imediatamente que seu tempo estava acabando. Precisava agir rápidos, ou acabaria como um criminoso.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Lara tomando o maior susto ao ver Paulo.
— Vim me esconder.
— Essa é boa! Liguei pra você porque precisava de ajuda e não de companheiro para fuga.
— Calma, vim porque preciso de sua ajuda para livrar a nossa cara.
— Como assim a nossa cara?
— Isso é uma longa história?
— E como você me encontrou aqui?
— Hii! Essa é uma história maior ainda.
— Que história você me trouxe, então?
— O final dessa caçada.
IX
— Estamos ao vivo de dentro do Maximus Shopping onde um homem foi morto há algumas horas — dizia a voz do repórter na TV local —. Paulo Baruck, nosso colaborador infiltrado nos dará maiores informações sobre o caso. Paulo, está me ouvindo?
A imagem de Paulo apareceu.
— Perfeitamente. Olá Sandro. O clima aqui dentro não é nada agradável, até porque eu mesmo estou sendo caçado pela polícia. A história aqui foi tão bem bolada que se alguns detalhes não fossem observados uma inocente acabaria com a culpa.
Naquele momento Luan vê Paulo num dos televisores do shopping e para atônito.
— O gerente e o funcionário de uma das lojas do shopping tinham um esquema para receber as camisas originais de marca, trocá-las por cópias muito bem feitas vindas da China que custavam dez por cento do preço de mercado, para depois poder vendê-las em outro estado. Parece algo simples, mas é um negócio que rende mais de cem mil por ano.
“Luan, o funcionário, estava envolvido com uma antiga funcionária da loja e ao que tudo indica ela estava desconfiada do negócio e começava a confirmar suas suspeitas, então, para não correr riscos Douglas, o gerente, a matou. A morte de Cíntia até agora não tinha sido solucionado pela polícia, mas nós temos aqui uma testemunha que ouviu a confissão de Douglas. Nossa testemunha também viu a briga entre o gerente e Luan e a morte do primeiro antes de ser empurrada da janela do terceiro andar e acusada de assassinato. Por sorte ela encontra-se fisicamente bem, apesar do psicológico um pouco abalado.
— Que história!
— Sei que parece um tanto maluca, mas as provas do que estou dizendo foram penduradas numa das janelas aqui do quinto andar. Se vocês puderem podem mostrar a sacola com as provas para nossos telespectadores.
A câmera externa tomou conta da transmissão, virou o quarteirão rapidamente e focou uma das janelas. Lá estava uma sacola pendurada na janela pelo lado de fora.
Luan não pensou, saiu a toda velocidade para o quinto andar, sabia muito bem que janela era aquela e sabia mais ainda que deveria pegá-la antes da polícia.
Enquanto isso a transmissão era desfeita.
— E daí?
— Você foi uma ótima câmera.
— Não é disso que estou falando. O que fazemos agora?
— Esperamos sermos presos.
— Hein?
— Em menos de cinco minutos este salão estará cheio de policiais, nos darão voz de prisão e seremos presos. Nos levarão para fora do shopping e ai o “gran finale”.
— Como você consegue saber todas essas coisas?
— Minha função é saber das coisas — disse ele entre um sorriso.
X
Nem Lara, nem Paulo e muito menos Luan conseguiu ver o próprio rosto estampado no telejornal local quando ele se debruçou para pegar a sacola pendurada na janela de fora do shopping. Ele ainda tentou esconder o rosto com uma das mãos, mas o esforço foi em vão. Sentou-se no chão e abriu a sacola: havia uma camisa e uma carteira vazia.
— Droga! — esbravejou lançando o pacote ao chão com força. Sentiu vontade de dar um tiro em Paulo, mas sabia que naquele momento a polícia já o teria encontrado. Colocou as mãos sobre a cabeça e diminuiu a respiração buscando de se acalmar. Os minutos pareciam se esvair e uma solução parecia nunca vir até o momento em que ouviu a platéia diante do shopping alvoroçada pela chegada de Paulo e Lara.
Luan esticou o pescoço e viu pessoas aplaudindo e abraçando o casal lá embaixo. Não havia mais o que fazer! — concluiu ele. Abriu a janela completamente e percebeu todos os olhares voltarem-se para ele. Um murmúrio preocupado fez-se ouvir e alguns braços acenando tentavam se comunicar com ele. Fechou os olhos e deixou o corpo cair.
Era o fim.
XI
Na noite do dia seguinte, depois de longas horas dando depoimentos na delegacia Lara e Paulo finalmente puderam jantar juntos. Escolheram um restaurante pouco movimentado, mas com um cardápio bastante caprichado.
— Sei que não é uma conversa muito romântica, mas eu gostaria de saber aquelas as lacunas da história.
Ele olhou-a com aprovação.
— Então me diga como você me encontrou.
— Você é funcionária nova do shopping, logo não poderia conhecer os dutos de ventilação, depósitos e outros lugares que poderia se esconder. Quando passei pela praça de alimentação subindo para o terceiro andar percebi que aquela geladeira estava entreaberta e que não havia luz aparecendo, assim, ou haviam deixado-a desligada, ou alguém tinha feito isso de propósito. Além disso, percebi que daquele ângulo você era capaz de ver qualquer um que se aproximasse pela mesma fresta que usava para respirar e podia fechar a porta completamente quando alguém passasse. Nunca imaginariam que você estivesse escondida numa geladeira. Só não sei como você teve tempo de tirar as grades e os produtos de lá.
Ela riu divertida.
— E como você conseguiu as provas contra Luan.
— Simples, juntei o que você me disse mais o que tinha ouvido e imaginei o que eles poderiam estar aprontando. Claro que fui abençoado de Luan ter na carteira um recibo de mercadorias de uma empresa digamos um tanto estranha. Liguei me fazendo por Luan e perguntei se a mercadoria já tinha chegado, me responderam que nós já deveríamos ter ido pegar a encomenda. Confirmei o valor da nota e a quantidade de camisas e vi que a diferença era beeem grande.
“Pronto! Já sabia o que movimentava o interesse deles, precisei apenas preencher os fatos. Apareciam várias chamadas e algumas mensagens de carinho de Cíntia, além de outras mensagens de Douglas com instruções de locais e preços”.
— Agora parece tão simples.
— É simples, mas é preciso olhar pelo ângulo certo, ou tudo vira uma confusão.
— Posso te fazer uma confissão?
— Nossa! Se eu for merecedor, fique a vontade.
— Quando eu estava lá estava lá escondida prometi dar o troco naquele sem vergonha. Depois até me senti um pouco culpada por ele ter morrido do mesmo jeito que tentou me matar. Parece que eu quis e acabou acontecendo.
— Realmente é preciso tomar cuidado com aquilo que se deseja, mas creio que você não deve ter exercido tal influência. Luan tentou fugir da própria responsabilidade, só isso.
— Mas eu vou cumprir parte do que prometi.
— Não entendi...
— Vou fazer concorrência pra você. Vou me empenhar em prender pessoas igual a Luan, que fazem o mal para os outros.
— Mas você vai se formar em publicidade daqui a seis meses.
— Mas isso nada me impede de fazer o bem lutando por trazer a verdade a tona.
— Nossa! Filosofou agora, hein! Começo a ficar cada vez mais interessado em você...
Marcos Morasck, setembro, 2010.