
Olá amigos leitores!
Os textos aqui postados são produções que muitas vezes faltam correções e acabamentos técnicos e por isso peço desculpas antecipadamente por algum problema que venha a surgir depois de um olhar mais atento que o meu.
Entretanto, como alguns deles estavam guardados em meus arquivos havia muitos anos resolvi compartilhá-los com vocês, afinal, escrevo porque amo fazê-lo, mas também amo ver alguém lendo o que escrevo.
Em resumo: minha existência aqui se deve a SUA EXISTÊNCIA aí lendo o que escrevo.
Marcos, 2011
O MELHOR AMIGO DE UM CÃO
Madrugada do dia 25 de agosto de 2001
Enquanto voltava para casa passei por um cachorro. Era um cachorro comum, talvez até um vira-lata, de orelhas e rabo cortados e manchas negras entre o pelo branco, enfim, nada de especial.
Quando passei pelo cachorrinho ele levantou o pequeno focinho imponente e a princípio pensei que ele avançaria sobre mim latindo, mas ao invés disso, em silêncio fez menção de me seguir.
Se for a sorte, que me siga, pensei. E ele me seguiu. Mudei a marcha da bicicleta, já incomodado com aquela perseguição e pedalei mais depressa. Não que eu não goste de cachorros, na verdade, é o animal que mais gosto, tanto que já tenho dois. Um terceiro seria uma situação insustentável em minha casa.
Enquanto eu apressava o passo, o pequeno animal fazia o mesmo. Olhei para trás e pedalei mais e mais rápido ganhando distância e tenho que afirmar que a determinação daquele em me seguir chegou a me espantar.
O caminho que sempre percorro para voltar para casa é uma linha reta, por que obviamente, é o mais rápido, porém neste dia dobrei a esquina tentando despistar o cachorrinho e continuei pedalando sem parar. No final daquela rua parei para verificar se ele ainda me seguia, então constatei que havia conseguindo. Não havia sinal dele.
Passei novamente pela rua que deveria ter seguido anteriormente e observei que o animal havia desaparecido. Segui meu caminho pedindo para que Deus cuidasse dele.
Quase cinco minutos depois, ainda pedalando, eu olhava para trás na esperança de ver o determinado cãozinho me seguindo. Pensei, me culpei. Eu havia sido um covarde em abandonar o pobre animal carente.
Como de costume a gente acaba inventando uma desculpa pra tudo e eu não fiz diferente. Pensei que eu havia feito a coisa certa, afinal não poderia dar o amor e o carinho que aquele bichinho precisava e esperava de mim. Outra coisa que eu já havia feito e que as pessoas costumam fazer é por nas mãos de Deus aquilo que a gente não pode ou não tem coragem para fazer.
Entretanto, a desculpa não parecia suficiente e não convencia nem a mim mesmo. O animalzinho havia me escolhido, lançado suas esperanças todas sobre mim, me seguido ardentemente e eu o abandonara sem dó nem piedade. Eu era um monstro.
O que teria acontecido se eu tivesse agido diferente, se eu o tivesse amado e acolhido. Não há respostas, poderia ter sido bom, como também poderia ter sido ruim. Além disso, o que isso importa agora? Nada, pois eu havia escolhido o outro caminho, o caminho do abandono.
Penso que talvez aquele cachorrinho ainda esteja lá, naquela rua, na escuridão da noite procurando por mim. Talvez ele me procure hoje, amanhã e o restante de sua pobre vida, ou talvez ele já tenha esquecido meu cheiro, meu rosto. Rezo para que ele tenha me esquecido e para que encontre alguém que o ame, mas rezo principalmente para que ele não seja a sorte.
O sorriso de criança
Num destes dias comuns reparei que as crianças sorriem e sorriem maravilhosamente bem, reparei também que os adultos nem sempre sorriem, pois na maior parte do tempo estão sisudos e preocupados; e quando finalmente sorriem em geral não são tão bem sucedidos neste quesito quanto às crianças.
E se, como já disseram outros: o rosto mostra aquilo que o coração está cheio, o que faltará nos corações da maior parte das pessoas adultas para que elas voltem a sorrir como crianças? Se todos já fomos crianças um dia e certamente tínhamos a igual capacidade de sorrir de modo encantador e contagiante, pergunto-me também: o que será que perdemos no meio do caminho que fez com que ficássemos como criaturas mais tristes?
Será que foi a ingenuidade? Artigo tão característico dos infantes que lhes facilita a vida em muitas situações livrando-os de preocupações desnecessárias que nós adultos fazemos questão de carregar conosco?
Talvez tenha sido a capacidade de imaginar o inimaginável e divertir-se com ele. Criando as situações mais ilusórias e transformando sonhos em realidades num passe de mágica, num mundo onde qualquer coisa é possível.
Ou ainda, será que estamos nos ocupando demais em nossas vidas não nos permitindo que nos sobre um tempinho para degustar os pequenos prazeres da vida que não nos custam nada? E esquecendo que um simples sorriso alimenta a alma e fortalece nossas relações com os seres a nossa volta mesmo que não sejamos capazes de compreender uma só palavra do nosso interlocutor.
Acabamos não aproveitando o prazer de uma gostosa gargalhada sem nos preocuparmos com quem esteja olhando, ou o que esteja acontecendo, ou mais importante ainda: que seja um sorriso original, desinteressado de qualquer espécie, apenas pela alegria de poder sorrir à vontade e viver a vida como o sorriso de uma criança...
Marcos Mariamo (publicado no jornal da Fiar).
A revolta do morto
Marcos (2000)
Conformados
Sentado à mesa de um bar ouço dois amigos conversando.
— Jorge, estou pensando sobre a honestidade no mundo em que vivemos.
— Não entendi. Você por acaso está bêbado?
— Não, claro que não. Imagine você quantas imagens, propagandas são lançadas aos nossos olhos para nos mostrar as maravilhas do mundo.
— Como assim?
— Por exemplo, este cigarro que você está fumando, o que levou-lhe a comprá-lo?
— Ah, sei lá! Que pergunta!
— Eu já te digo. Quando você vê este cigarro na mídia ele lhe é associado à inúmeras lindas imagens e sensações de liberdade.
— Então você quer dizer que eu estou sendo enganado?
— Mas é claro que sim, meu amigo. Que outro motivo levaria você a encher seus pulmões de fumaça?
— Mas isso não funciona só com o cigarro, é? Estamos sendo enganados a todo instante? Vivemos em um mundo de ilusões?
— Sim, vivemos em um mundo de propagandas, mas há um porém.
— Qual é?
— Se não fossemos iludidos pelo mundo em que vivemos não estaríamos aqui sentados, fumando e tomando esta deliciosa cerveja.
— Sabe que você parece meio maluco às vezes, mas tem toda a razão. Já que é assim, desejo que sejamos ludibriados o restante de nossas vidas.
E num ato de conformidade brindaram com mais uma cerveja gelada. Agora ficou eu a pensar que os seres humanos preferem ludibriar-se a recusar estes ditos prazeres da vida.
Os homens saem conversando alegremente do bar enquanto eu aqui sentado termino de tomar minha cerveja.
Marcos (1999)
Duas mãos
Para todos aquele era um dia de festa, a comemoração do início de um novo ano, a renovação do amor e da esperança. Porém para ela tudo estava prestes a acabar: ela se mataria.
Mas porque uma mulher rica, bela, de trinta anos, com um corpo perfeito e saudável que mora em um apartamento de luxo no décimo andar der um edifício localizado no centro de uma das maiores cidades do mundo se mataria num dia de réveillon? Por uma paixão não correspondida? Pela dor da morte de um ente querido?
Não, não era nenhum daqueles motivos. Ela ia se matar por causa de seus sonhos. Todos eles planejados e alimentados durante tanto tempo... Sonhos que se desfizeram afundando como um navio e levando consigo aquela linda mulher.
A vida havia tirado-lhe todos seus sonhos e sua esperança. Agora ela iria arrancar a vida de seu peito com aquela faca afiada apoiada em seu seio e que estava prestes a entrar-lhe pelo corpo perfurando o frio coração.
De pé, junto a janela, ela fechou os olhos apertando a faca e neste momento um sopro quente envolveu se corpo fazendo como em um passe de mágica o amor voltar a seu ser. A faca caiu no chão largada por ela que abriu os olhos com vontade de viver, no entanto, duas mãos fortes chocaram-se com suas costas lançando-a no vazio ao encontro da rústica calçada.
Ela estava morta.
Marcos (2000)
Incríveis transformações
Há muitos anos atrás quando eu ainda era jovem conheci um velho que já estava à beira da morte quando pediu a um de seus netos que lhe trouxesse fogo para acender o cigarro de palha. O menino saiu apressadamente e correu para o fogão enquanto o velho se perguntava como o garoto conseguiria fogo onde só havia brasas. Rapidamente o menino voltou trazendo uma das mãos coberta por cinzas e uma brasa sobre esta. Ao ver aquilo velho disse-me uma frase que jamais esquecerei: “Estou quase morrendo e vejo que ainda não aprendi tudo na vida”.
Depois deste fato fiquei pensando sobre a metamorfose contínua que é o ser humano. Esta tal metamorfose tem dois lados: o bom que é a capacidade de evoluir, de criar e mudar de opiniões, e o mau no qual uma pessoa em que você confiava estritamente vir a trair-te mediocremente, mas essa é outra história...
Quando terminar este texto posso ter mudado de opinião, porém agora isso não tem importância. E se alguém, hoje, vir a me perguntar quem sou responderei com sinceridade: “Alguém que nunca fui e muito diferente do que jamais serei”.
Marcos (1999)
Um dia perfeito
Abri os olhos e não consegui acreditar no que via. “Não estou em meu quarto” — foi o que pensei quando vi as colchas de cetim, cortinas de renda e móveis caríssimos povoando um luxuoso cômodo de 35 metros quadrados.
Levantei e fui até o banheiro descendo as escadas — que não existiam em minha casa. A cozinha era tão bonita e tão bem equipada que perdi alguns instantes admirando-a. entretanto, foi quando parei de admirar a cozinha que tomei o maior susto: uma moça muito bela, tipo modelo de capa de revista masculina estava ali, vestida apenas com uma camisola, sorrindo, me chamando de querido e perguntando se eu não ia me sentar para o café da manhã, que, diga-se de passagem, estava farto sobre a mesa.
Fui ao banheiro sem pronunciar nenhuma palavra acerca de Zuleica, minha esposa, como peso acima do ideal, as primeiras rugas aparecendo e um mau humor odioso todas as manhãs.
No banheiro me deparei comigo. Eu estava 15 ou 20 anos mais jovem e, no entanto, continuava com a sabedoria de meus 42. Fiquei ainda mais confuso, porém depois de quase meia hora ali dentro cheguei a conclusão de que um milagre muito grande ocorrera durante a noite.
Me vesti com minhas roupas novas, peguei meu carro do ano na garagem e fui para o hospital, que havia se transformado em uma clínica com meu nome estampado na fachada, onde encontrei algumas poucas pessoas com enfermidades banais.
Minha sala estava cheia de instrumentos sofisticados e meus pacientes eram recepcionados com som ambiente, suco natural e bolachas. Foi então que percebi não era o único presenteado com uma benção divina. Abri o jornal: nada de problemas ambientais, mortes, violência, desemprego, guerra, ou fome.
Quando estava indo para o banco me deparei com crianças, jovens e velhos e no semblante de todos encontrei amor e alegria. O mundo estava tão perfeito que cheguei a pensar que fosse o céu. Ao chegar ao banco percebi que eu estava muito rico, porém não me surpreendi, já havia me acostumado.
Contudo, no caminho de volta para casa algo terrível aconteceu: ouvi a voz de Zuleica me acordando. Fora um sonho. E agora a dura realidade havia voltado.
Hoje, quando penso naquele sonho que parecia tão real, me martirizo apenas por uma única coisa: não dei um beijo sequer naquela moça.
Marcos (2000)
Um tesouro
O nosso mundo está repleto de fatos corriqueiros e as vezes até monótonos que povoam nosso dia-a-dia. E muitas vezes estes fatos guardam riquezas enormes em pensamentos filosóficos e críticos sobre o que estamos vivendo.
Um magnífico exemplo de analista do nosso cotidiano é o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, que através de acontecimentos totalmente sem importância para outras pessoas, ele constrói sua poesia filosófica.
A poesia “No meio do caminho” diz: “No meio do caminho tinha uma pedra, Tinha uma pedra no meio do caminho...”. Esta simples repetição das palavras “meio”, “caminho” e “pedra” ligadas por preposições, artigos e verbos pode refletir sobre os obstáculos que enfrentamos todos os dias em nossa vida.
É interessante pensarmos também no porque das repetições a cada dia. O sol se levanta e se pões todos os dias. Pessoas nascem e morrem. O tempo passa constantemente e sempre da mesma forma desde o princípio do homem, hora após hora.
O cotidiano pode parecer chato, monótono. Todos os dias levantamos, vamos para o trabalho, ou para a escola; voltamos para casa, descansamos e voltamos a fazer a mesma coisa no dia seguinte. Por isso é necessário aprendermos a viver cada dia como uma nova experiência, como algo inusitado que nunca realizou-se deste modo antes e nem voltará a se realizar.
Devemos sim experimentar ações novas em nossa vida, mas devemos também dar valor ao gostoso sabor do cotidiano, pois é onde passamos a maior parte de nossas vidas.
Marcos (2000)
Amizade de criança
Essa é a história de como eu obtive meu primeiro amigo. Ele pode nem se lembrar mais disso, mas todo ano quando se aproxima do dia treze de maio, data de aniversário dele me lembro de uma amizade que surgiu de maneira simples, nunca pediu nada e era totalmente despretensiosa, como só as crianças têm o dom de fazer.
Eu tinha recém me mudado do sítio para a cidade, meu pai tinha levado consigo um detestável cavalo baio. Digo detestável, pois nossa relação nunca foi amigável. Claro que o animal nunca me fez nada e, além disso, devo dizer que apesar de meu desprezo pelo bicho nunca o mal-tratei. Contudo, a simples presença do quadrúpede me dava nos nervos. Primeiro porque nunca tive muito jeito com animais e depois por que era obrigado a cuidar do tal animal. Todos os dias era obrigado a pegar o bicho e levá-lo para pastar nos terrenos baldios.
Não julgo meu pai, pois creio que ele tivesse vontade de manter um pouquinho do campo ainda enquanto morava na cidade. Fato que sempre acontece com aqueles que são criados no sítio e de repente vão para a cidade, demoram se desapegar dos velhos hábitos. Confesso que das minhas maiores alegrias da infância senti quando após o natal de um ano qualquer voltei para casa e meu pai tinha vendido o animal, mas deixemos o execrado animal de lado, afinal essa é a história de uma amizade e não de minhas amarguras.
Num desses dias enquanto levava o tal cavalo para pastar num vi um menino tentando tirar uma pipa que estava enroscada numa goiabeira. O moleque tinha a mesma idade que eu, entretanto, era mais baixo e gordinho. Pela maneira como puxava a pipa vi que acabaria destroçando-a sem conseguir retirá-la. Perguntei se ele precisava de ajuda, ele me disse que sim, então, subi na goiabeira e a retirei.
Com esta simples ação ganhei um amigo, coincidentemente, no ano seguinte passamos a estudar juntos e daí seguimos até o final do ensino médio. Nunca fomos daqueles melhores amigos do mundo, nem vivíamos enfurnados uns nas casas dos outros, mas nos dávamos muito bem, tínhamos uma amizade singela e desinteressada e sabíamos que poderíamos contar um com o outro sempre que preciso. Lembro-me bem que ele até emprestava meu pai todo final de ano para fazer sua re-matrícula na escola!
Você já se perguntou quantas amizades simples e desinteressadas você possui hoje? Cada vez mais as pessoas tecem amizades só porque lhe dão alguma vantagem. Quase não há mais amizades pela amizade. Saudade dos tempos de criança!
Marcos (maio, 2011)
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Os 10 direitos de um sonhador
Direito de qualquer pessoa irrestritamente poder sonhar.
Direito de sonhar em qualquer lugar.
Direito de sonhar gratuitamente.
Direito de sonhar até mesmo acordado.
Direito de acreditar no próprio sonho.
Direito de sonhar em segredo.
Direito de sonhar coletivamente.
Direito de misturar sonho com realidade.
Direito de trocar de sonho quando desejar.
Direito de sonhar com qualquer coisa.
Novembro, 2007.
O melhor que a vida nos proporciona é o amor, o encantamento, a magia... Sem isto a vida se torna vazia e tudo o de melhor que conseguirmos se torna frívolo.
Cada nova experiência, cada cotidiano momento precisa ser vivido com amor, ou será apenas um peso, uma tarefa árdua a ser cumprida no caminho de nossa existência.
Não importa o que você quer, ou os caminhos que precisa percorrer, levante o olhar, abra um sorriso e siga amando cada detalhe, pois no final você terá encontrado o melhor que a vida pode lhe proporcionar.
Marcos Mariamo (01/05/2010)
Quase nada
Eu,
Sou um segundo no tempo,
um ponto no espaço,
um suspiro ao vento,
um grão de areia no deserto,
uma gota d'água no oceano,
um cisco no universo,
um homem na humanidade.
É verdade; sou o ser mais desprezível e insignificante
que já existiu,
mas continuarei sendo eu,
único e absoluto.
Marcos
nunca fiu muito bom de poesia, mas tive a sorte de
ter essa publicada no livro Brincando com as palavras p. 221
ainda no ano de 2000.